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Economia
Congresso em Foco
29/3/2025 11:00
A Argentina está em busca de um novo empréstimo junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), no valor de US$ 20 bilhões, com o objetivo, segundo o governo de Javier Milei, de reforçar as reservas do Banco Central (BC) do país. Críticos afirmam que essa medida visa evitar o aumento da inflação devido à escassez de dólares.
Historicamente, a Argentina já realizou 23 empréstimos com o FMI. "O montante que nós acordamos com o staff [equipe técnica do FMI], que o board [diretoria-executiva do Fundo] ainda precisa decidir se aprova ou não, é de US$ 20 bilhões. É muito superior ao montante que se vem escutando de algumas pessoas", declarou o ministro da Economia, Luis Caputo, nesta quinta-feira (27), durante um evento do setor de seguros latino-americanos.
Até o momento, não há informações sobre as exigências que o FMI poderá impor para a concessão do novo empréstimo. O chefe da política econômica do governo argentino mencionou que está em negociação com outras instituições financeiras, como o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe (CAF), para obter empréstimos "de livre disponibilidade". O anúncio do ministro ocorre poucos dias após ele ter se recusado a fornecer detalhes sobre as negociações com o FMI.
O diretor do Observatório da Dívida Pública Argentina, o historiador Alejandro Olmos Gaona, comentou que Caputo buscou acalmar o mercado financeiro, que tem enfrentado pressão cambial nos últimos dias, resultado de especulações sobre o acordo com o Fundo. "Em um mês, US$ 1,4 bilhão foi gasto para acalmar o mercado de câmbio, e agora o dólar continua subindo. Esta declaração do ministro certamente, como ele disse, visa acalmar um pouco a taxa de câmbio e os mercados", afirmou o diretor à Agência Brasil.
Olmos Gaona também avaliou que o empréstimo é uma resposta à necessidade do governo de manter um câmbio artificialmente baixo por meio da venda de dólares no mercado. "O governo precisa desesperadamente de dólares para fortalecer o Banco Central e seguir controlando a inflação [por meio da injeção de dólares na economia], porque esse é o único elemento que tem dado muito apoio ao presidente Milei. O que não se sabe é quanto vão mandar, que condições vão impor e o que vão fazer, depois, com esse dinheiro", comentou o especialista.
A inflação na Argentina, em decorrência da recessão que o país enfrentou, caiu de 287% ao ano, em março de 2024, para 66% ao ano, em fevereiro de 2025, conforme dados oficiais. O diretor do Observatório da Dívida Argentina destacou que as reservas do BC têm diminuído constantemente. "Isso não permite ao governo seguir mantendo uma ficção de um dólar que não sobe", disse.
A imprensa argentina tem noticiado que uma das exigências que o FMI pode fazer é a redução ou eliminação dos controles cambiais existentes no país, como a proibição de que as pessoas comprem mais de US$ 200 por mês. A possibilidade de instituir um câmbio totalmente livre tem elevado a procura por dólares.
A expectativa do governo de Javier Milei é fechar o acordo até a metade de abril. Se concretizado, este será o terceiro empréstimo com o Fundo desde que o governo de Maurício Macri firmou um acordo em 2018, que envolveu empréstimos de US$ 56 bilhões. O governo Milei argumenta que o objetivo é "sanear" as reservas do Banco Central (BC), que atualmente estão baseadas em títulos do Tesouro, trocando esses títulos por dólares. Com isso, em vez de dever ao BC, o governo argentino passaria a dever ao FMI, e o BC teria suas reservas em dólares, e não mais em títulos do Tesouro.
A operação, segundo o ministro da Economia, Luis Caputo, proporcionaria maior estabilidade à moeda local, o peso argentino, fortalecendo o controle inflacionário sem aumentar o total da dívida do país. "[O dinheiro] não é para financiar gastos, nem para financiar déficits, mas para recapitalizar o ativo do Banco Central. O que nós buscamos com este acordo é que a gente possa ficar tranquila que, finalmente, os pesos tenham respaldo no BC", afirmou o ministro.
Caputo espera que, com o empréstimo, as reservas do BC argentino cheguem a US$ 50 bilhões. Atualmente, o banco possui reservas estimadas em US$ 26 bilhões. Para efeito de comparação, o Banco Central do Brasil encerrou 2024 com reservas na ordem de US$ 329,7 bilhões.
O diretor do Observatório da Dívida Pública da Argentina, Alejandro Olmos, questiona o argumento de Caputo de que o novo empréstimo não traz riscos por não aumentar nominalmente a dívida do governo. "Não é o mesmo dever ao BC, que é da estrutura do Estado, que não faz exigências, não pede ajustes. Além disso, a dívida com o BC pode ser refinanciada permanentemente. Já o FMI estabelece condições muito restritas, exige regulamentações econômicas, monitorando e controlando a economia do país", ponderou.
Olmos destacou que, atualmente, a dívida argentina está em torno de US$ 471 bilhões, exigindo um pagamento de juros anuais na casa dos US$ 22 bilhões. Ao contrário da Argentina, o Brasil possui sua dívida pública quase toda em reais, o que facilita o pagamento e o refinanciamento dos passivos.
Para o especialista Alejandro Olmos, o novo empréstimo não é sustentável, e ele defende uma estratégia para resolver o problema da dívida pública. "O problema é que o poder econômico, os economistas, os teóricos, insistem que a única via possível para o desenvolvimento de um país é por meio do endividamento. Entendem que a única solução é seguir se endividando e, lamentavelmente, a história da Argentina demonstra que todos esses acordos com FMI sempre fracassaram", concluiu o historiador.
Por outro lado, existe a expectativa de que a exploração das reservas de petróleo e gás na região de Vaca Muerta traga receitas e dólares, o que pode permitir que a Argentina continue financiando suas dívidas. "O que passa é que são políticas conjunturais, não há planificação do Estado para um desenvolvimento sustentável", finalizou Olmos.
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