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Cezar Britto
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QUESTÃO DE GÊNERO
3/4/2025 11:17
Participar do seminário anual promovido pelo Instituto Joaquín Herrera Flores e pela Universidade Pablo de Olavide (UPO), na andaluza Sevilha, é compromisso sagrado no mês de janeiro. Neste ano, a inédita e proveitosa ideia de debatermos o texto orientador "Repensar o pensamento crítico", escrito pelo genial José Geraldo de Sousa Júnior, no qual o professor de todos nós traçou a sua cosmovisão de mundo, proporcionando-nos uma reflexão profunda.
Eis que, entre reflexões e inflexões, escuto de Angelita Rosa, uma das palestrantes, a seguinte frase-acusatória: "Os homens, héteros ou não, amam apenas outros homens. Com as mulheres, eles convivem". E ainda mais impressionado fiquei ao conversar com outras mulheres que participavam do seminário sobre o que apelidei de "Pacto de amor entre os homens". Todas confirmaram que esse era um assunto comum entre elas.
Adianto, o que para elas era óbvio, para aqueles que nasceram com o biológico órgão masculino e que conscientes ou não, alimentam e se alimentam do machismo estrutural parecia algo alienígena. Reafirmei essa reflexão no recente V Encontro Nacional das Advogadas Criminalistas (ENAC), organizado pela Abracrim Mulher, em que fui convidado pela advogada Ana Paula Trento para expor ou delatar (conforme a audição receptora) se havia relação entre o chamado "Pacto de Amor" e a milenar, ininterrupta e desamorosa violência contra as mulheres.
Faço aqui um pequeno parêntese sobre o "Pacto de Amor", talvez a razão da minha surpresa. No romance Um lugar longe do mundo, que escrevi no distante 2012, publicado pela Del Rey Editora, apontei como fundamental para o avanço da humanidade o que chamei de "Revolução pelo amor". No livro, o ficcional monge Felipe Ocara palestra sobre o amor e o seu papel libertador, diferenciando-o de sexo, paixão, atração ou possessividade. Dele, frases como: "Devemos compreender melhor o papel do amor e seu poder ampliativo"; "amar várias ou todas as pessoas é a chave da felicidade"; "amar sem culpa, medo ou timidez é o que proponho a todos vocês"; "amém e sejam felizes e conquistem a felicidade para toda a humanidade"; "a simples receita que compartilho com vocês: amar, amar e amar, ousada e destemidamente".
Ainda destaco uma das passagens escritas e já jogadas ao vento: "Somente quando compreender a importância de amar o outro, independentemente de sexo, de cor ou de raça, o homem começará a fazer a verdadeira revolução. Amar é, simultaneamente, sinônimo de liberdade, de igualdade e de fraternidade. Quem verdadeiramente ama o outro não o deseja escravizado, não quer a sua exclusão, tampouco abandonado. Quem assim ama quer para o amado o que se almeja para si mesmo. Querer-se bem é, neste caso, querer o bem que projetamos no outro".
E segue o monge na sua peroração amorosa: "Como ninguém é perfeito, podemos encontrar no outro o complemento daquilo que nos falta. O outro é, assim, o ocupante do espaço vazio que nos falta para atingirmos o grau de magnitude. O outro ou os outros são partes que, adicionados ao eu, fazem nascer o todo humano".
Evidente que o revolucionário amor está pulsante no ambiente em que histórias comuns são compartilhadas em gargalhadas, inacreditáveis aventuras são escutadas por alegres ouvidos críveis, jogos polêmicos são comentados com precisão científica e amizades são seladas a cada gole sem saideira. O "Pacto de amor entre os homens" tem, neste mágico momento de encontro, o concreto sentido da felicidade. O querer estar ali, juntos, como partes que se complementam em cumplicidade. Um acordo não assinado, em que as responsabilidades externas, assumidas ou não pelos contratantes, são transferidas para outras pessoas, não raro esquecidas ou culpabilizadas pelos infortúnios que ousam quebrar a "Revolução pelo amor" ali amotinada, insurrecta.
Daí, o grave efeito colateral do "Pacto de amor entre os homens". Amando-se em uma atmosfera machista, patriarcal e misógina, os homens normalizam e perdoam os homens que transformam as mulheres em coisas, objetos e adornos de seus quereres. E mesmo quando discordam das violências proferidas em palavras, o silêncio omisso, o sorriso forçado ou o afastamento provisório são cláusulas pétreas garantidoras do não rompimento do Pacto. Afinal, quem ama perdoa, mesmo quando as cortantes palavras são transformadas em corpos cortados em agressões físicas e feminicídios. O que importa, na verdade, é não ser excluído do feliz "clube dos homens que amam outros homens e são por eles perdoados".
Há, portanto, conflito mortal entre a "Revolução pelo amor" pregada por Felipe Ocara e o "Pacto de amor entre os homens" denunciado por Angelita Rosa. Como também exposto na palestra ficcional, o efeito colateral de quem ama é aceitar o outro com seus defeitos e virtudes. E é exatamente esse o ponto reflexivo que faz do "Pacto de Amor" também umas das causas do desamor gerador da violência contra as mulheres. Não é a toa que o bordão quem ama perdoa está presente em tantas canções populares, absorvido como correto nos mais diversos lares brasileiros. Um "Pacto de desamor, omissão e perdão" que deve ser denunciado, desmascarado e combatido, por todas as pessoas que acreditam na verdadeira "Revolução pelo amor", independentemente do gênero em que nasceram.
O texto acima expressa a visão de quem o assina, não necessariamente do Congresso em Foco. Se você quer publicar algo sobre o mesmo tema, mas com um diferente ponto de vista, envie sua sugestão de texto para [email protected].
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